Para encontrar paz interior cada um traça os caminhos que mais lhe agrada. Uns tentam ser bondosos em tudo o que fazem, respeitando o karma, outros viram-se para a religião; uns apostam na meditação, outros preferem o conforto que a música proporciona; uns adoptam a leitura, outros optam por tudo isto, e outros até para nada disto. Se és daqueles que procuram a música como refúgio, certamente conheces Ágaetis Byrjun, a segunda obra dos islandeses Sigur Rós.
Com uma música tão pura e diferente (“o som de Deus a chorar lágrimas de ouro no céu”), Ágaetis Byrjun – que significa “um bom começo” – não podia deixar de nos cair em graça e de nos tocar profundamente. Falar em temas até se torna escusado, porque o álbum forma um todo belíssimo, e ao fim dos seus 72 minutos temos a alma lavada, já seca e pronta a vestir.
Cantado em Hopelandic, uma língua inventada pela banda, na voz angelical de Jonsi (que também tem a particularidade de tocar guitarra com um arco de violoncelo), este bom começo poderia ser a banda sonora para a criação dos continentes, ou pelo menos da pequena Islândia, com todos os seus geiseres, rios glaciais e vulcões. Mais que cinemático ele é emotivo – do meio da neblina matinal até ao fogo de artifício nocturno são várias as sensações que nos atravessam e acariciam a pele. Tudo isto porque esta é uma obra extremamente sensível e feita com o maior dos carinhos.
As cordas dos violinos, com a sua beleza e intensidade, cortam mais pulsos que as tentativas de suicídio, e as teclas do piano vertem mais lágrimas que todos os presentes num velório de um famoso. Os próprios membros da banda colaram à mão as primeiras capas do disco, o que resultou em que alguns cds ficassem com pingos de cola. As gravações foram demoradas e o lançamento foi sucessivamente adiado. A própria editora Smekkleysa, dada a especificidade da música aqui contida, esperava ter apenas entre 1500 a 2000 discos vendidos. Mal ela sabia que esta música sobrenatural conquistaria o mundo. Da Islândia com amor, a arte dançou a valsa para todos nós e soube rir por último. |João Moura
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